Desde o início do meu percurso no cinema que trabalhado várias temáticas relacionadas com a condição da mulher na sociedade, a mulher no cinema, a i/emigração, o espaço da casa, a identidade e a memória. A procura deste filme vai de encontro com esse trabalho já desenvolvido, sendo uma reflexão sobre imigração, identidades, casas e mulheres.
Após ter trabalhado o processo de emigração dos meus pais de Portugal para o Luxemburgo nos anos 90, abordando o regresso ao país sempre adiado e o espaço da casa de sonhos fechada, em As Melusinas à margem do rio viro a câmara para o outro lado, procurando retratar mulheres, filhas de imigrantes no Luxemburgo, e por extensão, a mim própria.
A ideia para este filme surgiu no final de 2018, e nos últimos cinco anos tomou dimensões que, por vezes, me ultrapassaram. Se ao longo do filme vou tentando encontrar a lendária sereia Melusina, fundadora do Luxemburgo, mas com um histórico muito para além do pequeno país e quiçá sereia e/imigrante, a verdade é que procuro em Melusina assimilar todos os fragmentos que constituem a minha identidade, e ajuda para desvendar as respostas a várias questões: serei luxemburguesa, ou sequer considerada luxemburguesa? Ou serei imigrante no país onde nasci e cresci? O que é ser luxemburguesa? Porque é que nunca entendi o Luxemburgo como a minha casa, e o que me levou a emigrar para Portugal? O que levou a que sentisse esta fragmentação identitária?
Foi através de conversas com quatro mulheres na mesma situação que eu, que comecei a compreender,. encontrar e aceitar algumas das respostas a essas perguntas. Filhas de imigrantes no Luxemburgo, decidiram permanecer no país: Ana-Filipa, filha de portugueses; Melina, filha de mãe espanhola e pai congolês; Shanila, filha de ugandeses; Amela, filha de montenegrinos. Mais do que, como inicialmente pensado, levá-las ao encontro de Melusina, levam-me elas ao encontro desta figura mítica, e possibilitam-me uma tentativa de reconciliação com um país e um passado com os quais sempre tive dificuldades.