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Os Continuadores da Revolução

2026

Como se filmam espectros de memórias latentes no ar, conflitos que não desaparecem, revoluções inacabadas?

Sobre a mesa de luz, examino milhares de negativos fotografados por Manuel Roberto, em Moçambique. Foram feitas durante o governo de Samora Machel, o primeiro presidente pós-independência. Nessas imagens, encontro a história de um país que tentou ser a melhor República Popular do Mundo. Dou por mim cercado por fantasmas que sussurram os ecos das revoluções portuguesa e moçambicana.

Documentário
2026
Portugal, França, Moçambique / 90.
4K / aspect ratio 1.85 / sound: 5.1

Créditos

Director

Pedro Neves

Cinematography

Pedro Neves

Photographs

Manuel Roberto

Editing

Tomás Baltazar, Pedro Neves

Sound

Ricardo Leite

Music

Ivan Mucavél, João Ricardo OCO, Ramrife

Sound Mixing

Vasco Carvalho

Producers

Pedro Neves, Marianne Dumoulin, Jacques Bidou, Milton Manhenje

Production

Red Desert, JBA Production, Incomati Films

Narration

Mudluvela Mazuze, Jenny Neves, Angelina Ndzevo

Apoios

Nota de Intenções

Os Continuadores da Revolução

Portugal, França, Moçambique
4K / aspect ratio 1.85 / sound: 5.1

Na mesa de luz há uma série de negativos. São milhares deles e vejo-os um por um. Encontro muitas histórias. Cada imagem é uma história e eu quis saber de todas elas. O seu autor é Manuel Roberto, fotógrafo, que vive e trabalha no Porto como eu.
 
Durante a guerra colonial eu ainda não era nascido. Manuel Roberto nasceu e cresceu nela. Com a independência que punha fim a vários séculos de colonização, veio o período de paz e de todos os sonhos. Como milhares de crianças, o Manuel Roberto era um Continuador da Revolução, uma organização criada por Samora Machel semelhante às que existiam no Bloco Leste Europeu e de ideologia colectivista.
 
Eu nasci em 1977, o ano em que começou a guerra civil em Moçambique. De um lado, a Frelimo com forte apoio dos soviéticos. Do outro, a Renamo, apoiada pelo governo racista da Rodésia e pelo apartheid sul-africano. Durou 16 anos, cinco milhões de deslocados, um milhão de mortos nos combates e pela fome.
 
Quando o Manuel começou a fotografar eu era criança. Quando ele vivia uma guerra colonial seguida de uma guerra civil, eu vivia o rescaldo de uma Revolução num ambiente familiar revolucionário.
 
Conversamos horas e horas. A cada conversa, mais me questionava sobre a nossa história comum, o seu passado e o movimento inacabado e infinito das nossas duas revoluções. Dei por mim à procura dos fantasmas que sempre me disseram que não existiam. Procurei-os nas fotografias do Manuel, nas estradas de terra vermelha que são as veias de Moçambique, nos vivos e nos mortos. Procurei-os também em mim. Talvez eles saibam onde param as nossas revoluções.