Nota do autor
Já muitos trabalhos em bairros pelo país fora. Conheci muita gente e vi pessoas duras em momentos de enorme fragilidade em locais onde a violência suplanta diariamente o diálogo e onde as palavras e desenhos pintados na pele funcionam como gritos. Pode parecer estranho que sentimentos tão pessoais se espalhem nos corpos à vista de toda a gente mas talvez seja essa a única maneira de se fazerem ouvir. Não raras vezes, escutei um “ninguém quer saber de mim” ou um mais colectivo “ninguém quer saber de nós”.
Ao longo de dez anos, fui conhecendo várias destas pessoas no bairro do Cerco, no Porto. São jovens ou jovens adultos, na sua maioria. Uns já foram presos, outros trabalham, outros estão desempregados. Os dias doem mais ali do que noutros lugares da cidade.
“As tatuagens dos bairros são mais sofridas do que as outras”. A frase foi-me dita pelo Ruizinho há muitos anos. Conhecemo-nos quando filmei um documentário chamado Tarrafal, em 2015. O Tarrafal era, antes de demolido, um dos bairros mais perigosos do país, um sítio onde o tráfico, a violência e a morte atravessavam a espuma dos dias. Era também um sítio onde a irmandade se tornava a âncora que permitia a sobrevivência. Sozinhos não eram nada. Juntos podiam com tudo. O Rui abre esse filme com a filha mais velha ao colo. Passa na paisagem de escombros e conta onde morava e onde nasceu. Filmei-o a fazer uma tatuagem nas costas do Pedro que dizia TRF, acrónimo de Tarrafal. Ficámos amigos e fomo-nos encontrando várias vezes ao longo dos anos. Fui vendo as filhas crescer e a vida a acontecer, agora no Bairro do Cerco, onde vive.
O Rui não é só o Rui: é o tio Rui. É cigano, conselheiro, tatuador. Vive com a companheira Patrícia e tem três filhas. Viu pai e mãe serem presos praticamente ao mesmo tempo por tráfico de droga quando era pequeno e pensou sempre que não queria isso para a vida dele. Gostava de desenhar e tornou-se não só o tatuador do Cerco mas de muita gente espalhada pelos bairros do Porto.
Há cerca de dois anos dei uma oficina de cinema do bairro. O Rui, como sempre, ajudou-me, foi participante, assistente de produção, de realização e protagonista de algumas histórias.
Desta vez, o Rui vai ser novamente protagonista. Contudo, agora será um duplo protagonista. Não só tatua como o vemos nas tatuagens dos outros.
As tatuagens representam pedaços de muitas daquelas vidas. Há família que desapareceu, há bairros inteiros que foram demolidos, há facas, pistolas, olhos que choram, mãos que agarram grades, algemas, o martelo de um juíz, uma metralhadora, uma faca, um charro, um coração desfeito, um pássaro que voa para a liberdade, as palavras “deus perdoa mas eu não” tatuadas no corpo.
Ao longo do processo deste filme falei com muita gente. Visitei o bairro de noite e de dia. Falei com jovens, homens e mulheres, ciganos e não ciganos. Falei com vozes onde a desesperança sempre foi muito maior do que o sonho e cujo alento esbarrou muitas vezes em muros de betão. Dessas conversas surgiram desabafos, palavras que nunca tinham sido ditas, pensamentos que nunca tinham sido ousados.
A partir dessas conversas, fui juntando as peças e é daí que vão surgindo uma série de textos. É aqui que haverá uma inversão e entrarão novos personagens. Serão actores e actrizes que dirão os textos, interpretando as histórias individuais ou pequenos pedaços das histórias de cada um que se interligam numa só.
Os actores contracenam com os personagens reais mas assumem papéis inversos. Os actores fazem de personagens reais encenando os textos das histórias, e os personagens reais fazem de actores, escutando os textos, respondendo a espaços e observando. Servem de guia e de guião, conduzem e reflectem e trazem os personagens reais para um mundo mais onírico e etéreo, onde os sonhos acontecem. Serão eles também parte de uma escuridão onde irão submergir com os protagonistas reais. São observadores, interpretes e de onde sairão as palavras que vamos construir.
Através das tatuagens e dos textos ditos como sussuros, numa estética que faz lembrar Atlas, de Antoine D’Agata, vamos ouvir algumas vozes de actores que ditam textos construídos através das vozes dos protagonistas. É uma busca na escuridão pelos fantasmas que pairam ou que estão cravados na pele com tinta e agulhas. É uma busca interior pelas palavras que o vento sopra e ninguém escuta, que desaparecem nos becos onde tantas vezes parece que a violência é o único caminho.