A minha filha mais velha fez-me uma pergunta um dia. Quis saber para onde eu ia quando morresse. Respondi-lhe: para onde vou? Vou para as estrelas. A minha própria resposta fez-me refletir bastante sobre a valides dessa crença.
Perdi o meu pai quando tinha 18 anos. Tanto o meu pai como a minha mãe são pessoas muito crentes, católicos. A minha mãe estudou num internato de freiras e aos seus 78 anos continua a ir todos os domingos à igreja. O meu pai lia a Bíblia à noite e era mais dogmático que a minha mãe que começou a flexibilizar a fé. Há coisas em que acredita e outras nem por isso. Durante o luto do meu pai, acreditar “nalguma coisa” ajudou-me muito a superar vários anos de dor profunda pela perda. Mas essa fé foi desaparecendo. Houve várias situações na minha vida, sobretudo o papel que joga a mulher na igreja católica, que me distanciaram dela.
Mas, apesar disso, não consigo deixar de acreditar que existe algum tipo de vida depois da morte. Com os anos percebi que sempre estive à procura do “sagrado”, mas talvez em lugares que a religião não me tinha ensinado a olhar: nas árvores, no mar, na lua. Ao mesmo tempo, sempre me perguntei o que acontece com as pessoas que sabem o que existe no “mais além”, com as pessoas que já estiveram no espaço, com essas que como profissão olham para o céu todos dias.
ASTROS é a primeira vez que faço dessa busca o centro de um filme. Quero aproximar-me desta obra como me aproximaria a um método científico: a partir da dúvida, com perguntas abertas, disposta a não encontrar respostas definitivas. O que há entre a fé e a ciência? Podem coexistir? O cosmos diz-nos alguma coisa sobre o que somos?
Para encontrar respostas a estas inquietações, comecei a investigar o que me fazia falta na igreja: o mundo e a visão de mulheres. E neste âmbito encontrei a Zita Martins que procura as origens da vida em meteoritos e no espaço interestelar, na fronteira entre a química e a filosofia. Depois veio a Susana Iglesias-Groth que descobriu triptofano numa nuvem estelar, um dos blocos fundamentais para dar vida, a milhares de anos-luz de distância. Diana Trujillo e Liliana Villarreal são colombianas que chegaram a dirigir operações críticas das missões Artemis da NASA. Katya Echazarreta, a terceira mulher latina no espaço, astronauta e educadora que dedica o seu trabalho a aproximar gerações mais novas do universo. Estas mulheres habitam profissões historicamente masculinas com perguntas que também são minhas. O espaço e a fé têm isso em comum: são territórios onde durante séculos as mulheres estiveram ausentes das respostas oficiais.
Menos de 12% de todas as pessoas que estiveram no espaço até hoje foram mulheres. ASTROS quer abrir esse mundo: mostrar que há todo um campo por explorar e que neste momento há mulheres extraordinárias a investigá-lo. Em abril de 2026, os seres humanos voltaram a voar à volta da Lua depois de décadas sem fazê-lo. Em 2028, a missão Artemis IV aterrará na superfície lunar e espera-se que pela primeira vez na vida uma mulher pise a superfície desse astro considerado tão feminino. Estamos no momento cultural preciso para este filme. O mundo está a olhar para o espaço outra vez. E há muitas mulheres ibero-americanas no centro desse momento. E quero estar lá com elas e contribuir para este discurso com ASTROS.
Através de várias mulheres, ASTROS propõe um olhar para o universo que é também um olhar sobre o ciclo da vida. Porque a beleza universal deste filme está em como entrelaça três dimensões essenciais da existência humana:
O tempo (passado, presente e futuro),
o corpo (que gera, que pensa, que envelhece),
o mistério (de onde vimos, para onde vamos, o que fazemos entre uma coisa e outra).
Sou cineasta e mãe de duas meninas que já começam a fazer as suas próprias perguntas sobre o mundo. Cresci entre línguas, entre países, entre paisagens e culturas. A pergunta “de onde venho?” acompanhou-me desde sempre. Agora, estando entre duas gerações, transforma-se em “Para onde vou?”.
Durante mais de uma década, tenho trabalhado com temas que atravessam o íntimo e o político, entre a memória e o corpo, entre o feminino, a diversidade e o invisível. Filmes como Home – o país da ilusão, Soy Cris de Tierra Bomba e Ellas, Yo, Nosotras provaram que consigo transformar perguntas pessoais em narrativas coletivas, com profundidade poética e rigor documental.