“Os Grandes Ausentes” tem como ponto de partida a minha ligação de sangue a um avô que não conheci, um concessionário da Mercedes-Benz Argentina que esteve envolvido em crimes contra a humanidade durante a última ditadura militar. É esta a porta de entrada para um universo mais vasto: narrar uma história de luta que precede o golpe de Estado de 1976, através da combinação entre arquivo, documentário e ficção.
Uma estrada de madrugada, envolta em nevoeiro. Uma vedação com cartazes de passagem proibida. Num recinto fabril da zona oeste da periferia de Buenos Aires, inicia-se a mudança de turno. Os faróis dos automóveis desenham as siluetas de operários que saem do trabalho a meio da noite. Sobre as suas cabeças, ergue-se a famosa estrela de três pontas, símbolo da Mercedes-Benz, cujos administradores estão acusados de colaborar no desaparecimento forçado de operários durante a última ditadura argentina. Sobrevivem apenas algumas imagens em movimento da luta dos trabalhadores dos anos setenta. Numa série de fotografias tiradas por eles no mesmo recinto, três mulheres olham para a câmara. Os seus nomes próprios estão escritos à mão sobre a imagem, mas ninguém conhece o seu paradeiro. Em tom epistolar, escrevo a uma delas: Mari. Quem foi essa jovem taquigrafista, testemunha e mais tarde participante de uma revolta histórica? A partir de especulações sobre a sua vida quotidiana na fábrica, conhecemos fragmentos da história de organização e luta dos trabalhadores que, perante condições laborais indignas e um sindicato burocrático, levaram a cabo uma greve de 22 dias em 1975. Gerentes alemães ligados ao nazismo, bandos sindicais armados, espis na linha de montagem que informam sobre a atividade política dos operários: nada consegue amedrontar a organização sindical de base. Mari escreve telegramas de despedimento, enquanto escuta uma assembleia enardecida na qual se vota uma greve por tempo indeterminado. Alimentada por um espírito de luta em toda a cintura industrial da Província de Buenos Aires, a greve alastra-se e ganha repercussão internacional. Meses depois, com o golpe militar, dezassete trabalhadores serão sequestrados e desaparecidos. Alguns deles nos próprios pavilhões de produção, sob o olhar dos administradores. Entre a fabulação e o testemunho vivo, tece-se a história de resistência dos trabalhadores do setor automóvel e das trabalhadoras da taquigrafia, guardiãs insuspeitas das marcas da violência e da repressão de uma época que teima em regressar, mas também de uma memória subversiva que emerge do pampa e cresce entre as vedações que rodeiam a fábrica no presente. Que injustiças sacodem um corpo até o dispor para a revolta? Muito tempo depois, numa marcha pelo Dia da Memória, Mari reencontra-se com as suas companheiras taquigrafistas para organizar um plano onde pretendem recuperar os arquivos da ditadura que provam a cumplicidade empresarial. Juntas, reescrevem um destino marcado pela utopia.
Créditos
Realização
Azul Aizenberg
Produtor
Pedro Neves
Produtora
Red Desert