Enquanto Há Pão

"Enquanto Há Pão" aborda a relação entre os jovens e a paisagem, a memória coletiva, o olhar para o futuro e para os jovens, a geografia humana em torno do ciclo do pão e as tensões da agricultura intensiva no Baixo Alentejo. É um filme de autor, por vezes ensaístico e que, não sendo um filme etnográfico, aborda questões pertinentes ligadas à terra e às suas gentes.

O documentário "Enquanto Há Pão" emerge da relação entre as práticas tradicionais do Alentejo e as vivências contemporâneas da juventude local. Este filme observa o ciclo do pão e o que ele ancora simbolicamente num tempo de dispersão cultural, abandono e reinvenção. "Enquanto Há Pão" propõe uma viagem sensorial e política pelo Alentejo, através das suas tradições, do património imaterial e da vivência dos jovens, materializada no pão. O projeto procura uma relação entre passado e presente, através de imagens poéticas e personagens que vivem o seu território com consciência crítica e afetiva. "Enquanto Há Pão" é mais do que um filme que é também um gesto de escuta e criação coletiva num território marcado por desigualdades históricas. 

De  Filipe Nunes Branco
Documentário
Portugal
75', Cores, 4k, stereo

Créditos

Realização

Filipe Nunes Branco

Produtor

Pedro Neves

Produção

Red Desert

Nota de Intenções

Enquanto Há Pão

De  Filipe Nunes Branco
Portugal
75', Cores, 4k, stereo

Em Santa Iria, a minha aldeia, nas noites de verão, à sexta-feira, as pessoas aguardavam pela fornada de pão, com a expectativa de abri-lo e barrá-lo com manteiga. As crianças brincavam, os adultos conviviam e alguns homens jogavam à malha. O Pão faz parte das minhas memórias de infância e é o alimento evocativo do Alentejo.

Falar de Pão é relembrar as campanhas do trigo e a dureza do trabalho - e da vida! -, como no filme O Trigo e o Joio, de Manuel Guimarães; as modas alentejanas dedicadas ao trabalho de ceifeiras, como em Ceifeira, Linda Ceifeira; a sobreposição sagrada da terra e do pão, em Alentejo, Alentejo; a profunda ligação à terra, que mesmo sendo forçados a partir, nos acompanha, cantada em modas como Quando Eu Chegar ao Barreiro ou Alentejo, És Nossa Terra. Falar de Pão, também é relembrar as obras neo-realistas alentejanas, em. Falar de Pão, também é relembrar as obras neo-realistas alentejanas, em particular de Manuel da Fonseca, como Cerro Maior ou Seara de Vento, que sempre me fascinaram pela profunda relação com os modos de vida, crítica social acutilante e a tensão acumulada, num mal-estar ruminante subterrâneo que percorre os campos, que se traduz visualmente nos filmes Cerromaior, de Luís Filipe Rocha, e Raiva, de Sérgio Tréfaut.

Angustia-me viver num território em que os processos de transformação apenas contribuem para o persistente êxodo humano, em aprticular dos mais jovens, envelhecimento da população e exploração dos trabalhadores agrícolas, que hoje em dia são na maioria imigrantes. O progresso neoliberal mantém a região lucrativa para latifundários, obliterando a historiografia e negligenciando o futuro.

A ideia do filme constrói-se enquanto ainda temos os relatos orais, a memória histórica e os conhecimentos de fazer pão, para convidar os mais jovens a partilhar o que pensam do Alentejo. A ligação afetiva e cultural que mantemos ao Pão é o pretexto para refletirmos sobre o desenvolvimento coletivo da região e de como se poderia encontrar novos rumos para a organização agrária, cultura, economia, sociedade e indivíduos para, por fil, conseguirmos viver no Alentejo.

Neste filme, pretendo interpretar o presente a partir das experiências subjetivas dos jovens, da perspetiva autoral (ancorada na região) e da paisagen. A perspetiva histórica terá recurso aos arquivos da RTP, desde o "Um Povo Que Se Levanta", reportagens da seca desde os anos 80, magazines culturais como "Baixo ALentejo, ainda uma palavra", ou arquivos audiovisuais dos municípios e da Videoteca de Lisboa; as pesquisas bibliográficas e conversas exploratórias com habitantes também serão essenciais para aprofundar a reflexão sobre os modos de vida contemporâneos. Dessa forma, o filme pode projetar-se no futuro e no papel a desempenhar pelos mais jovens. Acredito que a participação dos jovens será um contributo singular para o filme desempenhar um papel histórico relevante.

Como tenho residência em Serpa e o meu filme, "A vida aqui, está vista?", foi rodado na Mina de São Domingos, em 2023 reuni um grupo de jovens para ensaios filmados, que contribuíram para a estruturação da ideia. Em 2024, com o apio do prof. António Casaca, realizei uma oficina de vídeo com alunos do secundário, do curso de multimédia, em Beja, que demonstraram interesse em participar em projetos de cinema. Mantemos contacto com esse grupo e com o prof. António para continuar a colaboração. ENQUANTO HÁ PÃO exige uma dedicação aprofundada ao território, que tem elevados níveis de êxodo juvenil, e aos protagonistas dos filmes, adaptando-se às necessidades. Os contactos desenvolvidos ao longo dos anos, permitem-me ter acesso a entidades, lugares, eventos e pessoas na região.

A abordagem cinematográfica pretende explorar o naturalismo alentejano e combinar uma perspetiva distanciada sobre a paisagem e os modos de vida com outra aproximada, íntima, sobre as personagens e a relação com o território. Na primeira, a escala é ampla e o plano cuidadosamente enquadrado, o ambiente cromático é afetivo, quente; na segunda, as imagens tornam-se aproximadas e a perspetiva move-se entre personagens e o contexto cénico, a intimidade torna-se estranha pelas problemáticas que se abordam e, por isso, a escala cromática percorre tonalidades mais frias, que evidenciam essa estranheza. Os arquivos audiovisuais sintetizam um período histórico em perspetiva com a nossa contemporaneidade, um passado com poucos ecos no presente. A voz-off autobiográfica é um elemento que me coloca no discurso narrativo, como integrante da região, e que pretendo experimentar no teaser.

A reflexão sobre o futuro do território é premente, numa época em que a incapacidade de imaginar o futuro tornou-se uma condição existencial, pela organização social atomizada, este filme procura esboçar um (pequeno) atlas humano da região. O envelhecimento e despovoamento mostram que o deserto será completo pela ausência de vida humana. ENQUANTO HÁ PÃO é um convite a interpretar a contemporaneidade e a projetarmos o tempo vindouro da nossa região, o (Baixo) Alentejo.