Imagens de Libertação, Apesar de Tudo

A partir do arquivo fotográfico de Augusta Conchiglia, três realizadores e investigadores contemporâneos imergem nas imagens fotográficas e cinematográficas. Augusta será o fio condutor que nos transportará pelas cinematografias revolucionárias e suas imagens das lutas de libertação em África (Angola, Guiné-Bissau e Moçambique), através da rede internacionalista de cineastas que agenciou a transição do anticolonialismo para as (pós)independências.

Em Abril de 1968, Augusta Conchiglia entrou clandestinamente em Angola. Com Stefano de Stefani, até Setembro, percorreu centenas de quilómetros com os guerrilheiros do MPLA. Tirou milhares de fotografias. Em tempo de solidariedade internacionalista, as suas imagens mostraram a luta em curso. Chegaram, entre outros, a Sarah Maldoror, que as usou em Monangambé, e a William Klein (Festival Pan-Africano de Argel). Conheceram-se em Argel, quando Conchiglia apresentou, no festival, um filme (desaparecido) sobre a luta de libertação em Angola. Era o tempo das amizades internacionalistas.

Este filme parte do arquivo e das memórias de Augusta Conchiglia para documentar uma história em que os protagonistas estavam do outro lado da câmara: Jean Luc Godard, Chris Marker, William Klein, René Lefort, Sarah Maldoror, Bruno Muel, Marcel Trillat, Ruy Guerra, Flora Gomes, Sana Na N’Hada, Tobias Engel, Elena Bedei, Ruy Guerra, Polly Gaster, Margaret Dickinson, Lennart Malmer e Ingela Romare.

A Proposito dell’Angola, filme realizado após nova entrada clandestina em Angola, em 1972, o qual redescobri num arquivo italiano, ditou o estreitamento das conversas que mantenho com Conchiglia. É o “fio de Ariadne” para contar como cinema e a fotografia, antes instrumentalizados pela propaganda colonial, foram arma de libertação. Como é que a utopia fica emulsionada na película? É possível reconstituir um atlas dos gestos libertadores através das imagens filmadas e fotografadas nas lutas independentistas? Como é que o imaginário das libertações persiste ou foi reelaborado, corrompidos os projectos de construção de estados socialistas e das cinematografias que se propuseram criar?

De  Luciana Fina , Maria do Carmo Piçarra  e Pedro Neves
Documentário
Angola, Moçambique, Itália, Portugal
75', Cores e Preto e Branco, 4k, stereo

Créditos

Directors

Maria do Carmo Piçarra, Luciana Fina, Pedro Neves

Produtor

Pedro Neves

Production

Red Desert

Nota de Intenções

Imagens de Libertação, Apesar de Tudo

De  Luciana Fina , Maria do Carmo Piçarra  e Pedro Neves
Angola, Moçambique, Itália, Portugal
75', Cores e Preto e Branco, 4k, stereo

Uma das memórias mais antigas que tenho é a de estar, com os meus avós, num reboque agrícola, na herdade dos Machados, esperando os trabalhadores rurais que, nesse dia, não iam para o campo. Iam votar nas primeiras eleições pós-25 de Abril. Vestidos com as melhores roupas, vinham alegres participar nessa outra madrugada – novo “dia inicial inteiro e limpo” – de começo da construção da democracia. Esse dia, aprendi muitos anos depois, não teria sido viável sem as lutas independentistas que, tão longe do Alentejo, emparelhavam com a luta antifascista que ali decorreu, também, protagonizada por trabalhadores rurais, sem terra, levantados do chão, sempre.

No cinquentenário do 25 de Abril, a convite da Cinemateca Portuguesa, programei o ciclo “Do cinema de Estado ao cinema fora do Estado”, em que a comemoração foi feita, também, mostrando as cinematografias de Moçambique, Angola e Guiné-Bissau. Numa das paredes interiores do edifício da Cinemateca, projectava-se Sempre, da Luciana Fina. Mantemos uma longa conversa, além da amizade. Quando conheci a Augusta disse à Luciana que tínhamos de contar a história dela no contexto das lutas anticoloniais e antifascistas. O filme da Luciana, atlas da memória da revolução por acabar, é – para mim, para tantos – uma via para a rememoração. Mas é também exemplar de como o arquivo pode actualizar gestos de esperança e liberdade. Nesse mesmo tempo, o Pedro Neves rodava, em Moçambique, o documentário Os continuadores da revolução, um filme entre imagens de passado e de presente, onde se construíam as linhas pós-coloniais de um país acabado de ser independente. Nele fixa o nascimento e construção de um país através do olhar (e palavra) do fotógrafo Manuel Roberto enquanto este vai ele próprio amadurecendo, projectando o seu sofrimento no sofrimento daqueles que fotografou. O dispositivo que encontrou para isso ajusta-se a tratar do olhar de Augusta Conchiglia e da sua memória dos encontros internacionalistas neste outro filme, filme a três, em que convergem modos de ver e fazer em sintonia.

Programar o ciclo “Do cinema ao cinema fora do Estado” rematou pontas da pesquisa iniciada quando, de 2006 a 2008, trabalhei num projecto de inclusão social de crianças e jovens imigrantes. Numa busca de respostas para a negação social do racismo sistémico num país que se afirmava isento dele, mergulhei em arquivos públicos e privados. Nas imagens depositadas, procurei compreender como o poder deliberadamente construiu e paradoxalmente projectou um imaginário colonialista, mas supostamente isento de racismo. Durante a investigação-acção, não tardei a encontrar contra-imagens. Foram – e são – a fenda por onde entra/ou a luz.

O processo foi sendo iluminado por encontros tanto com “imagens fulgurantes”, como com pessoas que, num contexto de solidariedade internacionalista, usaram o poder da imagem (e das palavras) para agir politicamente. Um encontro com Augusta Conchiglia – que originou, em 2021, a curadoria da exposição Augusta Conchiglia nos Trilhos da Frente Leste – Imagens (e Sons) da Luta de Libertação em Angola, no Museu do Aljube – fez-se ligação permanente através de um contínuo de imagens e palavras. Menos do que permanecerem encapsulados na memória da Augusta, há traços indeléveis de acção política e amizades internacionalistas, depositados no seu arquivo. Sobre ele, assentamos a nossa “câmara analítica”.

Com a Luciana Fina e com o Pedro Neves, comungamos a paixão pela imagem (e pela democracia participativa), sintonizados no desejo, político, de humanizar o mundo através dela(s). As pesquisas, feita de epifanias, foram-(nos) desvelando filmes – uns em processo de degradação, outros dados como perdidos – arquivos fotográficos desordenados e pessoas invisíveis – ou deliberadamente invisibilizadas –, devido ao seu engajamento e do desprendimento na sua acção humanista. Do arquivo de Augusta Conchiglia, vislumbramos Guiné-Bissau, Angola, e Moçambique e damos a ver muitos dos que quiserem participar nos nascimentos (em imagens) destas nações.

Entre 1973 e 1975, Guiné-Bissau, Angola, Cabo Verde, Moçambique e S. Tomé e Príncipe foram os últimos países africanos a libertar-se do colonialismo europeu. As suas lutas de libertação forjaram a revolução que restaurou a democracia em Portugal. Uma está intrinsecamente ligada às outras.

As solidariedades internacionalistas que apoiaram estas lutas materializaram-se, entre outras formas, num Terceiro Cinema descolonizador. Os filmes feitos alinharam-se com os objectivos da conferência Tricontinental, realizada em Havana, em Janeiro de 1966. Assim, durante as libertações e pós-independências dos países africanos de língua portuguesa, o cinema, a televisão e a fotografia foram usados para dar a conhecer ao mundo as lutas anticoloniais e para cimentar a unidade das novas nações, contribuindo para a criação de identidades partilhadas.

Imagens de Libertação, Apesar de Tudo é um “fio de Ariadne” através do qual, partindo das imagens e memórias dos encontros de Augusta Conchiglia, em tantos registos depositados no seu arquivo, se contam histórias da criação – e dos encontros de Conchiglia com os seus criadores – das “imagens fulgurantes” desse Terceiro Cinema. A história do engajamento e da rede de amizades de Augusta Conchiglia é exemplar de como, quando os movimentos de libertação nacional iniciam as lutas anticoloniais, se apoiaram na solidariedade internacionalista para criar contra-imagens em reacção à propaganda da ditadura portuguesa.

Feita a Revolução dos Cravos – que Conchiglia foi das primeiras a reportar, antes de seguir para Moçambique, onde esteve antes e após a independência –, como é que imaginaram Portugal como laboratório social único na Europa? Como é que, sob a influência do projecto do Terceiro Cinema, e registando “cenas da luta de classes”, realizadores (e colectivos de cineastas) documentaram o Processo Revolucionário em Curso e o início da Reforma Agrária?

Após as independências, projectos de cinema e televisão foram pensados para promover a criação das novas identidades nacionais nos novos países de língua portuguesa. Como é que esta “geração da utopia” internacionalista contribuiu para a criação de cinematografias em Moçambique, Angola e Guiné-Bissau? Os esforços para criar cinematografias nacionais receberam contributos cubanos e franceses, italianos, além de soviéticos e de outros países do Norte e do Leste da Europa. Que contributos foram deixados pelo Instituto Cubano Del Arte y La Indústria Cinematográficos (ICAIC), pelos colectivos cinematográficos (como o Unicité) surgidos após o Maio de 68 e pelos realizadores neles engajados?

Não obstante, nas novas nações africanas, a falta de infraestruturas técnicas para a produção cinematográfica e mesmo televisiva, a inexistência ou escassez de profissionais formados, recursos financeiros limitados, além das guerras que eclodiram num contexto profundamente condicionado pelo regime do apartheid, condenaram a utopia da criação de cinematografias nacionais por iniciativa estatal.

Há uma micro-história, desordenada, indisciplinada, por fazer, de fazedores e fazedoras de imagens de libertação. Contamo-la a partir das imagens e palavras depositadas no arquivo em desordem de Augusta Conchiglia, através do qual se escuta uma babel de vozes e sotaques, sons de libertação – disparos de armas, câmaras a filmar e disparos fotográficos – e se acede a contra-imagens, com variações de temas constantes, como as queimaduras de napalm, os ferimentos, os treinos de crianças, as sessões de doutrinação popular, mas também as escolas e os hospitais das zonas libertadas. Há também imagens fulgurantes da reposição da democracia, do hastear das novas bandeiras e do arriar da bandeira do colonialismo. Há cinema de urgência e fotografias que são mónadas pois nelas está contida toda complexidade e emoção do instantâneo revolucionário. No arquivo de Augusta Conchiglia – correspondente da revista francesa Afrique Asie e da sua edição inglesa Africasia – encontramos traços das vidas dos que viveram engajados, nos bastidores das revoluções, para registar a urgência de um mundo mais justo. A eles se deve(m) Imagens de Libertação, Apesar de Tudo.