Uma das memórias mais antigas que tenho é a de estar, com os meus avós, num reboque agrícola, na herdade dos Machados, esperando os trabalhadores rurais que, nesse dia, não iam para o campo. Iam votar nas primeiras eleições pós-25 de Abril. Vestidos com as melhores roupas, vinham alegres participar nessa outra madrugada – novo “dia inicial inteiro e limpo” – de começo da construção da democracia. Esse dia, aprendi muitos anos depois, não teria sido viável sem as lutas independentistas que, tão longe do Alentejo, emparelhavam com a luta antifascista que ali decorreu, também, protagonizada por trabalhadores rurais, sem terra, levantados do chão, sempre.
No cinquentenário do 25 de Abril, a convite da Cinemateca Portuguesa, programei o ciclo “Do cinema de Estado ao cinema fora do Estado”, em que a comemoração foi feita, também, mostrando as cinematografias de Moçambique, Angola e Guiné-Bissau. Numa das paredes interiores do edifício da Cinemateca, projectava-se Sempre, da Luciana Fina. Mantemos uma longa conversa, além da amizade. Quando conheci a Augusta disse à Luciana que tínhamos de contar a história dela no contexto das lutas anticoloniais e antifascistas. O filme da Luciana, atlas da memória da revolução por acabar, é – para mim, para tantos – uma via para a rememoração. Mas é também exemplar de como o arquivo pode actualizar gestos de esperança e liberdade. Nesse mesmo tempo, o Pedro Neves rodava, em Moçambique, o documentário Os continuadores da revolução, um filme entre imagens de passado e de presente, onde se construíam as linhas pós-coloniais de um país acabado de ser independente. Nele fixa o nascimento e construção de um país através do olhar (e palavra) do fotógrafo Manuel Roberto enquanto este vai ele próprio amadurecendo, projectando o seu sofrimento no sofrimento daqueles que fotografou. O dispositivo que encontrou para isso ajusta-se a tratar do olhar de Augusta Conchiglia e da sua memória dos encontros internacionalistas neste outro filme, filme a três, em que convergem modos de ver e fazer em sintonia.
Programar o ciclo “Do cinema ao cinema fora do Estado” rematou pontas da pesquisa iniciada quando, de 2006 a 2008, trabalhei num projecto de inclusão social de crianças e jovens imigrantes. Numa busca de respostas para a negação social do racismo sistémico num país que se afirmava isento dele, mergulhei em arquivos públicos e privados. Nas imagens depositadas, procurei compreender como o poder deliberadamente construiu e paradoxalmente projectou um imaginário colonialista, mas supostamente isento de racismo. Durante a investigação-acção, não tardei a encontrar contra-imagens. Foram – e são – a fenda por onde entra/ou a luz.
O processo foi sendo iluminado por encontros tanto com “imagens fulgurantes”, como com pessoas que, num contexto de solidariedade internacionalista, usaram o poder da imagem (e das palavras) para agir politicamente. Um encontro com Augusta Conchiglia – que originou, em 2021, a curadoria da exposição Augusta Conchiglia nos Trilhos da Frente Leste – Imagens (e Sons) da Luta de Libertação em Angola, no Museu do Aljube – fez-se ligação permanente através de um contínuo de imagens e palavras. Menos do que permanecerem encapsulados na memória da Augusta, há traços indeléveis de acção política e amizades internacionalistas, depositados no seu arquivo. Sobre ele, assentamos a nossa “câmara analítica”.
Com a Luciana Fina e com o Pedro Neves, comungamos a paixão pela imagem (e pela democracia participativa), sintonizados no desejo, político, de humanizar o mundo através dela(s). As pesquisas, feita de epifanias, foram-(nos) desvelando filmes – uns em processo de degradação, outros dados como perdidos – arquivos fotográficos desordenados e pessoas invisíveis – ou deliberadamente invisibilizadas –, devido ao seu engajamento e do desprendimento na sua acção humanista. Do arquivo de Augusta Conchiglia, vislumbramos Guiné-Bissau, Angola, e Moçambique e damos a ver muitos dos que quiserem participar nos nascimentos (em imagens) destas nações.
Entre 1973 e 1975, Guiné-Bissau, Angola, Cabo Verde, Moçambique e S. Tomé e Príncipe foram os últimos países africanos a libertar-se do colonialismo europeu. As suas lutas de libertação forjaram a revolução que restaurou a democracia em Portugal. Uma está intrinsecamente ligada às outras.
As solidariedades internacionalistas que apoiaram estas lutas materializaram-se, entre outras formas, num Terceiro Cinema descolonizador. Os filmes feitos alinharam-se com os objectivos da conferência Tricontinental, realizada em Havana, em Janeiro de 1966. Assim, durante as libertações e pós-independências dos países africanos de língua portuguesa, o cinema, a televisão e a fotografia foram usados para dar a conhecer ao mundo as lutas anticoloniais e para cimentar a unidade das novas nações, contribuindo para a criação de identidades partilhadas.
Imagens de Libertação, Apesar de Tudo é um “fio de Ariadne” através do qual, partindo das imagens e memórias dos encontros de Augusta Conchiglia, em tantos registos depositados no seu arquivo, se contam histórias da criação – e dos encontros de Conchiglia com os seus criadores – das “imagens fulgurantes” desse Terceiro Cinema. A história do engajamento e da rede de amizades de Augusta Conchiglia é exemplar de como, quando os movimentos de libertação nacional iniciam as lutas anticoloniais, se apoiaram na solidariedade internacionalista para criar contra-imagens em reacção à propaganda da ditadura portuguesa.
Feita a Revolução dos Cravos – que Conchiglia foi das primeiras a reportar, antes de seguir para Moçambique, onde esteve antes e após a independência –, como é que imaginaram Portugal como laboratório social único na Europa? Como é que, sob a influência do projecto do Terceiro Cinema, e registando “cenas da luta de classes”, realizadores (e colectivos de cineastas) documentaram o Processo Revolucionário em Curso e o início da Reforma Agrária?
Após as independências, projectos de cinema e televisão foram pensados para promover a criação das novas identidades nacionais nos novos países de língua portuguesa. Como é que esta “geração da utopia” internacionalista contribuiu para a criação de cinematografias em Moçambique, Angola e Guiné-Bissau? Os esforços para criar cinematografias nacionais receberam contributos cubanos e franceses, italianos, além de soviéticos e de outros países do Norte e do Leste da Europa. Que contributos foram deixados pelo Instituto Cubano Del Arte y La Indústria Cinematográficos (ICAIC), pelos colectivos cinematográficos (como o Unicité) surgidos após o Maio de 68 e pelos realizadores neles engajados?
Não obstante, nas novas nações africanas, a falta de infraestruturas técnicas para a produção cinematográfica e mesmo televisiva, a inexistência ou escassez de profissionais formados, recursos financeiros limitados, além das guerras que eclodiram num contexto profundamente condicionado pelo regime do apartheid, condenaram a utopia da criação de cinematografias nacionais por iniciativa estatal.
Há uma micro-história, desordenada, indisciplinada, por fazer, de fazedores e fazedoras de imagens de libertação. Contamo-la a partir das imagens e palavras depositadas no arquivo em desordem de Augusta Conchiglia, através do qual se escuta uma babel de vozes e sotaques, sons de libertação – disparos de armas, câmaras a filmar e disparos fotográficos – e se acede a contra-imagens, com variações de temas constantes, como as queimaduras de napalm, os ferimentos, os treinos de crianças, as sessões de doutrinação popular, mas também as escolas e os hospitais das zonas libertadas. Há também imagens fulgurantes da reposição da democracia, do hastear das novas bandeiras e do arriar da bandeira do colonialismo. Há cinema de urgência e fotografias que são mónadas pois nelas está contida toda complexidade e emoção do instantâneo revolucionário. No arquivo de Augusta Conchiglia – correspondente da revista francesa Afrique Asie e da sua edição inglesa Africasia – encontramos traços das vidas dos que viveram engajados, nos bastidores das revoluções, para registar a urgência de um mundo mais justo. A eles se deve(m) Imagens de Libertação, Apesar de Tudo.